Nesta quinta-feira (15), o sociólogo Emir Sader, coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj, veio até Curitiba para lançar seu novo livro “O Brasil, entre o passado e o futuro”.
Em todos os lugares do Brasil onde os autores – Emir Sader e Marco Aurélio Garcia – fazem o lançamento do livro, um debate é realizado com os participantes. Em Curitiba, o autor respondeu várias perguntas, desde a democratização dos meios de comunicação, até políticas de alianças.
O evento foi promovido pelos programas de Pós-Graduação em Sociologia e em Ciência Política da UFPR, em conjunto com o Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes. Contou com a presença de Gleisi Hoffmann, integrante do diretório nacional do PT, deputado federal Dr. Rosinha (PT), vereador Pedro Paulo (PT), Roseli Isidoro, presidente do PT Curitiba, além de membros da executiva.
Emir Sader concedeu entrevista ao site PT Curitiba.
Segue a íntegra:
O livro – “O Brasil, entre o passado e o futuro” – foi concebido para fazer um balanço da herança recebida pelo governo Lula, das transformações realizadas nestes dois mandatos e dos objetivos colocados para o futuro do Brasil. Como o senhor ver a necessidade dos intelectuais de esquerda fazerem análise deste período?
Emir Sader: Foi um período muito conturbado, não era exatamente como a gente previa que fosse, esse mandato. Avançamos, com certeza, mas avançamos empiricamente, sem um projeto estratégico. Nós avançamos pela linha de menor resistência do neoliberalismo, de maior fraqueza do neoliberalismo. Quer dizer, eles propunham um tratado de livre comércio com os Estados Unidos, nós propúnhamos integração regional, priorizar as alianças regionais. Eles propunham prioridade do ajuste fiscal, e nós propomos prioridade das políticas sociais. Então foi por aí que nós, empiricamente, avançamos. Lugar do Brasil no mundo, alianças e prioridade do social em relação ao econômico financeiro. Nós avançamos o máximo que dava até esse limite. Agora, não só porque tem eleição, mas é preciso fazer um balanço do que avançamos, do que não avançamos, porque não avançou, como que dá para avançar. E ter um objetivo mais claro programaticamente, estrategicamente, que tipo de estado a gente quer, que tipo de sociedade a gente quer. Então que a eleição não seja apenas um momento de elaboração de plataformas, conquistar o direito de continuar a dirigir o país, mas também de repensar, agora atualizado por tudo o que passou, o projeto estratégico da esquerda.
Novos setores sociais estão chegando à cidadania econômica e social, agora falta chegar à cidadania política. O governo está fazendo o seu papel ao desenvolver políticas econômicas e sociais. Qual é a tarefa da esquerda neste processo?
Emir Sader: Especialmente do PT, a base social, fundamental nossa mudou. Houve dois processos. Um foi a crise de 2005, reverteu a imagem pública do PT e debilitou a nossa imagem em relação a certos setores, sobre tudo o tema ético. Mas por outro lado, as políticas sociais ganharam uma massa, como você disse, nova que se incorpora a política. Uma das tarefas fundamentais da esquerda, justamente, é dar capacidade organizativa e política, transformar em sujeito político essas novas bases que estão chegando a direitos econômicos sociais que não tinham, mas que não tem ainda consciência, organização, para poder ter um protagonismo político fundamental. Eu acho que essa é uma das tarefas fundamentais do PT e da esquerda, ajudar esses setores sociais empobrecidos a serem sujeitos políticos, participar do bloco do poder. Ter representantes, ter organização, ter plataformas, ter pontos de vista, ter mobilizações próprias.
O senhor afirmou que “não faltarão aqueles que dirão que é um livro chapa-branca”, mesmo assim defende uma reflexão do governo. O senhor classifica o governo como “relativamente moderado, mas que mesmo assim recebeu uma reação duríssima da direita”. Como imagina que será com as transformações que ainda estão por vir?
Emir Sader: A ideia de “chapa-branca”, eu não tenho vergonha. Não acho um tema desqualificador o fato de ser “chapa-branca”, acho muito pior ser jornalista de uma imprensa que se autodenomina como partido político, como a executiva da Folha reivindicou. As pessoas não são jornalistas, são militantes de um partido. Portanto, não há nenhum compromisso, nem sequer disfarçado, com a objetividade, com o serviço público, com a informação, com o espaço de debate. Então isso sim eu acho problemático. Até porque estamos num governo, por que fomos eleitos. Eles não foram eleitos por ninguém, eles foram escolhidos familiarmente, por relação sanguínea. Otávio Frias Filho é filho do senhor “Otávio Frias Pai”, assim como os “marinhos”. Então, Esso que não é problema, quer dizer o livro é a favor do governo, no sentido de reivindicar o que o governo fez. Mas é justamente um livro que busca questionar vários aspectos. Por exemplo, a análise econômica do Nelson Barbosa, demonstra como houve uma mudança, um salto de qualidade, uma mudança na política econômica. Há duas fases diferenciadas: uma que privilegia o sistema econômico financeiro, e outra o desenvolvimento econômico e política social.
E pretendemos, sobretudo, debater o futuro. Como você falou, embora o governo seja relativamente moderado, e com razão, os pobres nunca melhoraram tanto e os ricos nunca ganharam tanto. É um governo que tem que continuar ter uma produção. Hoje no jornal “Valor Econômico” está claro, que a grande maioria dos empresários está contente com o governo, mas a grande maioria vai votar no Serra. Quem tem um bloco, como aquele dos tucanos, não vai confiar no PT. Isso já um tema.
Segundo lugar, há problemas graves pendentes. Hegemonia do capital financeiro, o modelo de agronegócios, justamente a ditadura da mídia privada. São temas que tem que ser tocados, e quando tocados, certamente, vão provocar uma reação forte da direita. Maior do que houve até agora, porque é um enfrentamento maior.
Acho que a vantagem é que, se nós ganharmos, toda uma geração da direita é que vai ser derrotada. Então abre um caminho forte para a gente avançar. Contanto que a gente faça da campanha, não apenas uma conquista eleitoral, mas o fortalecimento do apoio de massa ativa da esquerda, sem isso será difícil enfrentar a próxima etapa.
Como esta será uma campanha onde a internet já se
coloca como uma ferramenta fundamental, como o senhor pensa a segurança na rede? Levando em consideração a invasão no site do PT Nacional, que primeiro aconteceu de colocarem vírus no próprio site e depois direcionaram a página.
Emir Sader: Isso vai haver de todo o tipo. É censura, na verdade a imprensa censurou a pesquisa do VoxPopuli. Ela vetou a possibilidade do povo saber de uma pesquisa que não é deles. Mesma coisa quando estão preparando o clima em relação ao Senso. A invenções de notícias, a campanha concentrada contra a candidata da esquerda. Então, podemos esperar muitas coisas, temos que estar preparados para elas. Essa invasão é apenas um episódio, talvez não dos maiores, mas que temos que enfrentar daqui para frente. Para a direita é uma tragédia ficar mais 4, 8 anos fora do governo. Eles estão loucos por não terem mais acesso para manipular o estado do jeito que bem entendem, as estatais, a crise financeira da imprensa supõe um apoio forte da imprensa por parte do governo. Então, é uma situação um pouco desesperada para o campo de direita. Não quero dizer que eles já perderam, mas que este risco já os deixa numa situação de fragilidade enorme diante do próximo governo. Então, agora estão utilizando esses instrumentos e vão usar coisas piores ainda.
Foi lançado o dado de que 50 países rejeitaram a urna brasileira. O senhor acha remota a ideia de uma possível manipulação nas eleições?
Emir Sader: Essa é uma desconfiança do Brizola, mas não há nenhum sintoma. Salvo a chance de qualquer questão técnica. Mas a idéia de um plano, superaquitetado, para sacanear assim eu acho difícil, ainda mais que eles não tem o estado na mão, é menos provável.
Caso a Dilma ganhe, que ações o senhor considera que terão que ser mais enfáticas no governo, que serão necessárias?
Emir Sader: Primeiro a reforma do estado, acho que, como ela diz no livro meso, é um estado feito para não atuar. Pois existem muito mais órgão de controle do que da execução de quem quer desenvolver o País. Portanto, fica trancado, centrado, por mecanismos de obstáculos para o governo. Mas acho que tem que enfrentar. Se quisermos ter um modelo efetivamente de desenvolvimento tem que enfrentar a hegemonia do capital financeiro, que é um obstáculo para o crescimento econômico. Está aí, praticamente a autonomia de fato do Banco Central, taxas de juros altíssima. Portanto, o incentivo ao capital especulativo e não ao capital produtivo.
Depois o modelo no campo, por mais que seja uma realidade incontornável a hegemonia do agronegócio. Temos que fortalecer estrategicamente a pequena e média empresa, pelo que significa em democratização do acesso a Terra, mas porque ela que produz alimentos no mercado interno. Não tem sentido o Brasil continuar a importar alimentos, tendo a maior extensão de terras culturáveis e cultiváveis do mundo e porque ela dá emprego. Então, é preciso re-configurar as relações de propriedade no campo. E, estaria também a opinião democrática da opinião pública, contornando esta circunstancia que na verdade algumas famílias forjam a opinião pública no Brasil.
Nesse sentido o senhor coloca a ditadura da mídia privada?
Emir Sader: É quebrar essa ditadura que sem a qual não haverá formas democráticas de formação da opinião pública. Hoje quem domina a opinião pública são quatro ou cinco famílias, sem nenhum controle popular, sem nenhum controle democrático, sem expressar a maioria nenhuma, de nenhum tipo, por poder econômico, por deter concessões públicas praticamente ilimitadas. Financiadas não pelos leitores, mas por agências de publicidade privada, que são mecanismos viciados. Então é uma estrutura não democrática e tem que ser quebrada para construir uma via de caráter público.
A Conferência Nacional de Comunicação, o Plano Nacional do Desenvolvimento Humano já são os primeiros passos?
Emir Sader: Eu acho que sim. Foi mais representativo de sucesso de impacto do que se imaginava que pudesse ser, com o boicote dos grandes meios privados de comunicação. Eles estão numa situação de muita fragilidade, tanto econômica, quanto de audiência. Todos estão tirando financeiramente, menos da metade do que tiravam há anos atrás. Então estão perdendo audiência, perdendo espaço. Todos os anos tem duas ou três reformas em cada jornal. Reforma gráfica, reforma de estrutura. Agora funde jornal com página para ver se resolve, mas é um problema de fusão. Perda de credibilidade, este é o problema. É uma crise moral, mas do que uma crise pura e simplesmente de merchandising ou internet. Considero estes alguns dos temas mais importantes a serem tratados, para poder construir um país democrático. Veja a organização dos setores populares, sem quebrar a hegemonia da mídia privada vai ser difícil. Sem um órgão de expressão, de organização entre eles. Hoje todo diálogo social está intermediado pela mídia privada. Eles querem até serem os intermediários entre governantes e de cidadania. Se o Lula faz um discurso, eles escolhem o que vão difundir ao seu bel-prazer. Nem sequer o Lula, que é o maior vencedor de audiência, por ter sido eleito e reeleito, acaba ficando dependente do que eles escolherem o que vai chegar a massa da população. E o Presidente não tem só o direito, mas a obrigação de falar constantemente para o povo. E ao não fazer isso, acaba sendo prisioneiro, ou a cidadania sendo prisioneira, no gargalo daquilo que a imprensa escolhe como seu viés de análise da sociedade. Por exemplo, só interessa saber se o Lula ganhou ou não ganhou na reunião com o Obama, não o conteúdo da reunião. É uma visão viciada, que não só prioriza temas que não existem, como escondem temas fundamentais para o País. Então, não serve para o País se discutir a si mesmo.
Li a seguinte frase do senhor, durante o debate no lançamento do livro no Rio de Janeiro: “Qualquer avaliação que se tenha do governo Lula, é preciso reconhecer que é um período de enormes transformações. Vivemos um período em que o velho insiste em sobreviver e o novo tem dificuldades em encontrar suas formas de existir. O velho é o neoliberalismo, e o novo é aquilo que vai superar o neoliberalismo”. Isso que o senhor novo é um verdadeiro rompimento do neoliberalismo ou uma remediação?
Emir Sader: É um rompimento com o neoliberalismo, mas não necessariamente com o capitalismo, mas com um modelo específico que é o modelo mais mercantilizado que o capitalismo já produziu, de mercadoria, tudo se vende, tudo se compra, tudo tem um preço. Nós queremos fortalecer direitos em detrimento ao mercado, a esfera pública em detrimento da esfera mercantil. Isso que realmente é um governo pós neoliberal, que universaliza direitos, em detrimento do acesso através do mercado. Prioriza o cidadão ou invés do consumidor. Não inviabiliza o consumo, ao contrário, está promovendo o consumo através de políticas públicas, de distribuição de renda, etc.
Esse consumo promovido, o senhor não acha exacerbado? Um consumo inconsciente?
Emir Sader: O Brasil é o país mais desigual do mundo e a América Latina o continente mais desigual. Massa de demandas não atendidas, faz com que não sejam o estimulo do consumo exorbitado. Ao contrário, as pessoas não estão especulando, não estão comprando coisas desnecessárias. Estão comprando móveis, sapatos, roupas, estão reformando a casa. Quer dizer, não creio que seja promover o consumo, neste consumo básico, seja consumista. Não é uma visão de mundo centrada no consumo e nem é uma febre de consumos artificiais fomentados pela publicidade. São necessidades reais, que até hoje o salário mínimo está muito por baixo do necessário para uma cesta básica. As pessoas suprem com outros benefícios, como o bolsa-família, por exemplo.
Fotos: Elias Dias