A Gazeta do Povo, neste sábado 04/07, publica duas matérias que refletem mais uma vez a incompetência da atual gestão, comandada pelo Prefeito Beto Richa, em resolver problemas que existem desde o início da sua 1º gestão. Para o PT, “Beto Richa está ficando craque em não resolver problemas e criar outros.”
A difícil travessia da Linha Verde
Criada para unir os dois lados da cidade, nova avenida ainda é um obstáculo para os pedestres
Publicado em 04/07/2009 | JOSÉ MARCOS LOPES
Seis meses depois da inauguração, o primeiro trecho da Linha Verde ainda não deu mostras de que o projeto número um da administração Beto Richa cumprirá seu principal objetivo: unir os dois lados da cidade, historicamente divididos por uma rodovia. Mesmo sem todos os empreendimentos e a ocupação previstos, um problema já incomoda quem mora ou trabalha na região: a dificuldade para atravessar a via. Dependendo do ponto, os pedestres precisam andar até um quilômetro para cruzar a pista em locais seguros. Outra alternativa é esperar que os veículos deem uma “folga” e atravessar longe dos semáforos – o que não é indicado sob o ponto de vista da segurança.
O problema é a falta de semáforos ou passarelas em determinados pontos. Há dois trechos de aproximadamente dois quilômetros sem sinaleiros, um entre o início da Linha Verde e a estação Vila São Pedro e outro entre as estações Xaxim e Santa Bernadethe. Em outros pontos, há “vazios” de até 1,5 quilômetro sem possibilidade de travessia. Segundo técnicos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), existe a possibilidade de novos semáforos serem instalados no futuro, dependendo da necessidade e da ocupação da região
A reportagem esteve três vezes na Linha Verde nesta semana e constatou que a maioria das pessoas não anda até os cruzamentos para atravessar a via. Foi o caso do vigia Deivid Francisco de Souza, de 22 anos, e do jardineiro José Maurício da Silva, 36, flagrados ao cruzar as pistas entre as estações Santa Bernadethe e Vila Fanny. “Se quiser atravessar com segurança tem que andar muito”, afirma José Maurício. “Só se andar até o sinaleiro, mas nem sempre dá pra fazer isso. Se colocassem uma passarela ia ser melhor pra gente”, comenta Deivid.
A cozinheira Cristina da Silva, de 60 anos, e a auxiliar de cozinha Paula Guimarães, 25, moram na Vila Hauer e enfrentam uma dificuldade diária para atravessar a via na altura da Estação Vila Fanny – apesar de utilizarem a faixa de segurança. “Antes era até mais calmo, não tinha tanto ônibus”, diz Paula, que se queixa da impossibilidade de atravessar a via de uma só vez. “Quando o sinal abre a gente atravessa, mas quando chega na metade o sinal já fechou. E de manhã é pior, tenho que atravessar todo dia às 7h30, para levar os filhos para a escola.” Para Cristina, o ideal seria a instalação de passarelas. “[A Linha Verde] funciona, mas para quem está de carro. Para quem está a pé ficou bem difícil.”
Projeto
Para o engenheiro civil Eduardo Ratton, professor do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a origem do problema está no projeto inicial para transformar a antiga rodovia, iniciado durante a gestão do ex-prefeito Cassio Taniguchi (1997-2004). O projeto foi abandonado na época e retomado no primeiro mandato do prefeito Beto Richa. “Havia uma série de discussões”, lembra. “O objetivo principal era dar agilidade ao transporte coletivo, porque era um financiamento externo para a rede integrada da região metropolitana. Na época verificou-se irregularidades no projeto. Os sinaleiros eram a primeira coisa condenável, deveria haver viadutos e trincheiras.”
Ratton avalia que, em uma obra do porte da Linha Verde, não podem ser poupados recursos que garantam a segurança. “Na época já se questionava uma estação a cada quilômetro, a pessoa teria que andar 500 metros para um lado ou para o outro”, comenta. “É claro que as pessoas vão acabar não indo até o próximo sinaleiro, vão tentar atravessar no meio. É um erro de concepção. A coisa infelizmente passa por um investimento maior, mas estão insistindo nos sinaleiros, que já não são compatíveis com o trânsito conturbado da cidade. Hoje as pessoas levam 10, às vezes 15 minutos para atravessar a rua. Tem de ir lá e perguntar para os usuários, não basta fazer desenho.”
O arquiteto Fábio Duarte, professor do mestrado em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), avalia que o objetivo da Linha Verde era transformar a rodovia em uma via urbana, mas que o projeto viário a trata como uma autoestrada. “Se é para fazer uma via urbana, que vai ter edifícios altos, com travessias constantes, algumas coisas do cotidiano da Linha Verde não foram previstas no projeto viário”, afirma. “Uma solução vai ser a instalação de plataformas ou uma reforma total para as travessias em nível.”
Para Duarte, uma das saídas seria a instalação de semáforos inteligentes para os pedestres. “O mais recomendado é diminuir as distâncias entre as travessias”, diz. “O argumento contrário é que vai diminuir a velocidade do tráfego na via, mas hoje há poucas travessias, porque não há nenhum prédio habitacional.” Apesar dos problemas, o arquiteto considera que, com as mudanças previstas pela alteração no zoneamento, a Linha Verde possa unir os dois lados da cidade. “Ainda vai demandar um tempo, até o zoneamento começar a surtir efeito, até surgirem os prédios residenciais e comerciais.”
A travessia de pedestres é um dos temas que será avaliado na próxima edição do Fórum Linha Verde, em agosto, evento organizado pela Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura para discutir a paisagem que a antiga BR terá no futuro. “Nos polos [áreas próximas às estações] seria fundamental que se criasse algum tipo de sistema”, diz o arquiteto Orlando Ribero, organizador do fórum. Defensor dos semáforos inteligentes, quando houver “demanda que justifique isso”, ele considera as passarelas inviáveis. “Há um problema de acessibilidade. Como passa ônibus e caminhão por ali, a passarela teria de ter 7 ou 8 metros de altura. Com isso, a rampa não teria menos de 80 metros. Começa a ter uma extensão muito grande.”
Ippuc admite instalar mais semáforos
Publicado em 04/07/2009 | JOSÉ MARCOS LOPES
Técnicos do Ippuc admitem a possibilidade de a Linha Verde ganhar novos semáforos no futuro. Segundo os arquitetos Luiz Hayakawa e Reginaldo Reinert, a instalação de novos sinaleiros dependerá da ocupação da via, já que o projeto de transformação da antiga rodovia prevê comércio diversificado e prédios habitacionais.
Os semáforos – incluindo os sinaleiros “inteligentes”, acionados por pedestres – deverão ser a única saída, já que os técnicos do Ippuc descartam a possibilidade de o trecho sul receber passarelas ou viadutos. “Um viaduto inibe os empreendimentos: ninguém faz um centro comercial ao lado de um viaduto”, afirma Hayakawa. “O tráfego que passa pelo viaduto não tem nenhuma relação com o comércio do local.”
O arquiteto cita como exemplo o viaduto de 7 km que cortava o centro de Seul, na Coreia do Sul. Construído em 1968, ele foi demolido em 2004, em um processo de revitalização. “A lógica da Linha Verde é ocupar a antiga rodovia, a mesma ocupação dos eixos estruturais. Como se faz isso, como se geram empregos com viadutos, que matam o comércio e criam áreas degradadas?”, questiona. A construção de viadutos, de acordo com o arquiteto, também iria contra a ideia de “afastar” o tráfego de caminhões.
“As pessoas ainda enxergam a Linha Verde como uma BR, ainda esperam a velocidade de uma rodovia”, comenta Reinert. “O processo está no início, ainda não há quase nenhum empreendimento com o novo perfil. À medida que crescer, haverá mais semáforos. Nesse primeiro momento, a possibilidade de travessia está nas estações.” No trecho já concluído, há seis pontos de travessia.
As passarelas “tradicionais” – como as que existem sobre a BR-277 ou na própria Linha Verde, na altura do Colégio Mdedianeira – são descartadas. “É uma agressão fazer o pedestre subir e descer”, argumenta Reinert. De acordo com Hayakawa o projeto prevê a construção de passarelas elevadas entre os polos ou entre diferentes empreendimentos. Elas seriam instaladas pela iniciativa privada – à semelhança da passarela do Shopping Mueller, sobre a Rua Mateus Leme.
O trecho norte, entre o Jardim Botânico e o Atuba (cujas obras ainda não começaram) terá viadutos, pois são obras já existentes.
Acessibilidade ainda tem falhas
Publicado em 04/07/2009 | JOSÉ MARCOS LOPES
A Linha Verde trouxe avanços na acessibilidade, mas ainda há falhas. Quem aponta os erros e acertos é o arquiteto Ricardo Tempel Mesquita, autor de cartilhas sobre o tema e inspetor do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Paraná (Crea-PR).
Mesquita acompanhou a reportagem em uma visita à Linha Verde e indicou o que considera os principais acertos: travessias em nível; guias rebaixadas para cadeirantes; pista tátil cromodiferenciada (com cores diferentes, para pessoas com deficiência visual leve); piso antiderrapante, de concreto betuminoso ou blocos de concreto intertravados; iluminação adequada para pedestres; rampas com inclinação máxima de 7% para cadeirantes; e catracas especiais para deficientes e pessoas com locomoção reduzida.
Apesar dos acertos, Mesquita avalia que ainda é preciso avançar. Mesmo porque algumas das iniciativas adotadas foram implantadas, segundo ele, de maneira errada. Um exemplo são as guias rebaixadas na esquina com a Rua Antonio Bariquello: elas não estão de frente uma para a outra. “Se um cego passar por uma dessas guias e seguir em linha reta, vai parar no meio da rua”, afirma Mesquita. Outro problema foi detectado na inclinação de uma rampa que leva a uma guia rebaixada, na altura da Rua Leonel França. “Tem cerca de 40% de inclinação. Uma cadeira de rodas que pegar uma inclinação como essa vai parar no meio da rua. E um cadeirante não consegue subir para chegar sozinho à estação.”
Entre os pontos negativos estão a ausência de sinalização sonora nos semáforos, descontinuidade da ciclovia (em certos trechos ela fica no canteiro central, em outro está na lateral), faixa conjunta para pedestres e ciclistas e ausência de tachões ou lombadas, que obriguem os motoristas a reduzir a velocidade.
A arquiteta Maria Miranda, do setor de Planejamento do Ippuc, avalia que, no caso da rampa, que não é usada apenas por cadeirantes, o ideal talvez fosse não fazer a guia rebaixada. Com relação às guias, segundo ela ainda há uma dificuldade de alinhamento, devido às características de cada calçada. “Estamos em processo de transição, antes ninguém se preocupava com esse assunto [acessibilidade]. Ainda temos um passivo, todas as cidades foram construídas sem esse pensamento.”
Prefeitura de Curitiba recorre de liminar do Tribunal de Justiça que impediu duas empresas de continuar na disputa
Publicado em 04/07/2009 | VINICIUS BOREKI
A licitação do lixo, que vai definir a empresa responsável pela operação do Sistema Integrado de Aproveitamento de Resíduos Sólidos (Sipar) para Curitiba e outros 16 municípios da região metropolitana, está parada desde 19 de maio deste ano. Na etapa de abertura de preços, as concorrentes Recipar Soluções Ambientais e Paraná Ambiental – duas mais bem classificadas na análise técnica – foram impedidas de continuar na disputa em função de uma liminar do Tribunal de Justiça. Apesar de afirmar ter pressa para solucionar a questão do lixo, a prefeitura de Curitiba recorre da decisão, tentando recolocar os dois consórcios no embate.
Há necessidade de urgência no processo licitatório porque o Aterro da Caximba está com os dias contados. Não há consenso entre o Consórcio Intermunicipal para a Gestão de Resíduos Sólidos e o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) sobre o tempo de vida. A prefeitura argumenta que, desde que os grandes geradores pararam de despejar o lixo no aterro, o prazo para uso se esticou em cinco meses – de agosto de 2009 para janeiro de 2010. O IAP aguarda os laudos técnicos para se pronunciar sobre o assunto, mas Vitor Hugo Burko, presidente do órgão, indica a aproximação do limite.
Revogação não foi votada
Mesmo que a licitação do lixo se encerrasse hoje, haveria dificuldade para determinar o local de implantação do Sipar. Duas áreas – em Fazenda Rio Grande e Curitiba – receberam licenciamento prévio do IAP. Segundo o Consórcio Intermunicipal e o IAP, o terreno mais indicado está em Mandirituba. Assinada pelo ex-prefeito Domingos Adir Palú em 8 de dezembro de 2008, a Lei Municipal nº 483, contudo, impede o município de receber resíduos sólidos de outras cidades. Antonio Maciel Machado (PDT), o atual prefeito, argumenta que a legislação é inconstitucional por duas razões: não revoga as disposições anteriores e não determina em que moeda se deve aplicar a multa caso a lei não seja respeitada.
A Câmara Municipal de Mandirituba não votou a revogação, desde fevereiro na pauta. Para agilizar o processo, o vereador Zé Luís (PC do B) entrou com mandado de segurança, tentando agilizar o processo. “Com o Sipar, o município vai receber em torno de R$ 6 milhões por ano, cerca de 25% do orçamento anual. E sem agredir o meio ambiente”, afirma. Para Zé Luís, a votação esbarra nas questões políticas.
Diretor legislativo da Câmara, Irivan de Jesus Ferreira afirma que o entendimento da Câmara é apenas conhecer a opinião do povo. “Foram várias manifestações contrárias, por isso temos esse interesse”, diz. Para isso, é necessário colher a assinatura de 5% do total de eleitores para o Tribunal Regional Eleitoral realizar uma consulta pública.
O procurador-geral de Curitiba, Ivan Bonilha, afirma que não se pode apressar a licitação, apesar da necessidade. “Estamos recorrendo em nome do município porque é nossa obrigação, não se trata de defender o interesse das empresas”, diz. “Criou-se um caos com essa situação. Mas é preciso ter responsabilidade para contorná-la”. O secretário municipal de Meio Ambiente, José Antônio Andreguetto, afirma que não se pode desprezar as propostas dos participantes. “Quanto maior o número de empresas concorrentes, mais democrático se torna o processo”, diz.
Outro entrave é o fato de a empresa Tibagi, virtual vencedora da licitação caso Recipar e Paraná Ambiental sejam efetivamente excluídas, participar da concorrência sob liminar. “A questão ainda não foi julgada. Mas a empresa foi impedida na apresentação dos documentos, a fase inicial”, explica Bonilha. “A liminar pode ser cassada ou não. E, se for, ela seria desclassificada. E geraríamos outro grande problema”.
Legitimidade
Na etapa de divulgação de preços, apenas quatro de seis envelopes foram abertos. Conforme Bonilha, o processo continua legítimo mesmo com a nova configuração. “Abrir todos os envelopes é o caminho mais correto e transparente, porque evita a especulação”, afirma. O procurador ressalta, porém, a necessidade de respeitar as normas judiciais. E, por esse motivo, o processo continua válido, porque não haverá troca das propostas de preço dos consórcios Recipar ou Paraná Ambiental.