Jonny Stica*
O título não se refere a uma greve de passageiros de ônibus após a publicação da licitação, cujos participantes se conheceu na última sexta-feira (26). Tampouco a de proprietários de carros que ainda não pararam para pensar como o trânsito será afetado pela falta de concorrência do sistema. Nada disso. Simplesmente se refere a uma série de consequências a médio e longo prazo na ausência nos últimos anos de planejamento urbano e processos licitatórios verdadeiros. E acredite: esses fatores se relacionam.
Para entendermos isso, é preciso lembrar como Curitiba virou referência em planejamento urbano, tendo como uma das principais vedetes o transporte coletivo. Em 1974, a cidade construiu a primeira de muitas caneletas exclusivas para ônibus. Atualmente, são 72 quilômetros de vias exclusivas, que cruzam Curitiba em todos os sentidos. Essa significativa e positiva mudança no sistema viário serviu para aumentar a velocidade do trajeto e diminuir o número de paradas, consequentemente diminuindo o tempo do percurso (posteriormente melhorado com as estações tubo). Com esta moderna opção de transporte, mais usuários optaram pelo sistema coletivo.
A cidade havia achado sua vocação em relação ao transporte: o planejamento viário de vanguarda virara conceito de cidade. Naquele momento, a impressão é que jamais Curitiba poderia vir a ser uma espécie de Los Angeles, onde avenidas se entrelaçam em todas as direções e é mais fácil atravessar a rua tomando um carro, subindo rampas, deslizando por curvas imensas e chegando ao outro lado da rua, do que simplesmente atravessar a pé. Contudo, Curitiba, mesmo ainda longe de ser uma São Paulo, inverte a sua vocação e implanta o modelo de transporte individual, renegando sua identidade coletiva.
Isso não quer dizer que não seja importante alargar ruas, criar binários, construir avenidas. Existe uma demanda para isso que independe das decisões urbanas, que naturalmente coloca o carro em destaque. Afinal, além do conforto, a grande facilidade de financiamento tornou o carro acessível a uma grande parcela da população. É inegável ainda o desejo que cada um de nós tem em possuir um veículo.
O problema não é o carro, mas sim, torná-lo a única opção. E deixando como única escolha veículos motorizados individuais, esquecemos do compromisso da cidade de outrora, que possibilitava deslocamentos mais sustentáveis.
Esse novo caminho levou Curitiba a ter o índice de poluição de ar duas vezes maior do que o indicado pela Organização Mundial da Saúde. Em dez anos, teremos o dobro de carros na cidade, deixando qualquer rua com a mesma aparência e lerdeza da Av. Visconde de Guarapuava em final de expediente. Além disso, o carro e seu solitário motorista ocupam uma área 12 vezes maior proporcionalmente que o ônibus ou o metrô que poderia passar logo abaixo.
Mas o leitor não precisa se sentir culpado. Não precisa andar de carro escondido. Admito que também não deixarei, por enquanto, meu carro na garagem na maior parte dos trajetos. Sei que precisarei dele. As distâncias são longas e a cidade é planejada só para ele. Curitiba, afinal, perdeu sua vocação. Mesmo com as campanhas em favor do transporte coletivo e alternativo, provavelmente você chegará atrasado se tentar ir de ônibus a um compromisso. Ou machucado se tentar ir de bicicleta. Assaltado se for a pé. Com o nariz cheio de terra se tentar ir de metrô (claro, ele não existe).
Obedecemos a uma lógica na hora de escolher o deslocamento, e isso funciona para todas as pessoas. E a regra é simples: é preciso ser econômico (e em todos os sentidos).
Primeiramente no tempo: ninguém quer perder mais tempo no veículo, seja ele qual for. Se for coletivo, é preciso ainda acrescer a espera por ele e a insegurança da sua chegada no horário. É preciso ser econômico também no conforto. E atualmente a escolha está entre o banco do carro ou percorrer grandes distâncias em pé, garantindo sua segurança agarrado a um pedaço de ferro que balança, sentindo o sovaco da pessoa ao lado e, até mesmo, sendo encoxado pela insensibilidade pública que trata os passageiros como sardinhas numa lata.
Por fim, o mais importante é ser econômico no preço.
No caso da tarifa do transporte público, um dos principais motivos para o elevado preço é antigo, já que as mesmas empresas operam, sem concorrência, o sistema há 55 anos. Como em qualquer outro serviço, quando existe concorrência, o preço diminui. Aliado a isso, a administração não evoluiu no que foi planejado para o transporte coletivo, principalmente, com novos projetos, o que resultou num sistema caro, lento, desconfortável, ultrapassado e que gera decréscimo no número de passageiros.
Assim, passados 21 anos desde que a Constituição exigiu concorrência para concessões de operação do transporte público, a primeira licitação do tipo em Curitiba não mudará em nada o julgamento das pessoas sobre a economia que fazemos na hora de escolher o tipo de deslocamento.
Na prática não haverá concorrência pelo preço da tarifa (ora, apenas as empresas que já operaram os lotes em disputa apresentaram propostas, sem nenhum rival). Também não imagino mudanças significativas no conforto do passageiro. Viva! O enlatamento de gente continua!
Não havendo concorrência de preço, tenho certeza de que, após a eleição, a tarifa da passagem aumentará, afastando milhares de usuários do transporte coletivo. Um círculo vicioso: quanto mais caro, menos passageiros. Menos passageiros, mais caro. E como se não bastasse, não se fala em nenhum tipo de subsídio ao sistema, independente da esfera pública.
Hoje, já é mais barato pagar um financiamento de uma moto em 48 vezes do que pagar a tarifa do ônibus todos os dias no mesmo período (com a diferença de que no final do prazo, a pessoa ainda adquiriu um bem). Assim, mesmo com a licitação conclusa, a escolha mais econômica, em todos os sentidos, ainda será o veículo motorizado individual, deteriorando ainda mais o trânsito em Curitiba.
*Jonny Stica é Vereador e Arquiteto Urbanista
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